Nova telinha…
O ano é 1982 agora! Como estas coisas de lembranças não vem em ordem! Poderia dar um tempo para o que restou da minha consciência e me deixar ver as coisas em ordem cronológica, né?
Dá o maior trabalho tentar compor este mosaico que me apresentam…
Eu e mais dois amigos em um ônibus, à noite. Quem são? Onde estamos indo? É um ônibus de viagem, com certeza. Logo, estamos indo viajar para algum lugar, mas não reconheço esta estrada. E sinto que estou com aquele friozinho na barriga de quando a gente faz uma coisa pela primeira vez.
Ônibus parando. Noite…Conselheiro Lafaiete!!!!
Estou vendo minha primeira viagem para Ouro Preto!!!!!
Chegamos lá pela manhã, por volta das 6h. A primeira impressão que tive foi o cheiro – que, depois de muitas idas e vindas à cidade, eu reconheceria como uma característica de OP. Um cheiro de minério misturado com mato e coisa velha… Um cheiro inesquecível, que me despertaria por anos uma sensação de aventura, de farra, de cerveja gelada, meninas bonitas, diversão, amizade e centenas de milhares de outras coisas boas da vida (sem ironia!).
Um dos amigos, natural de Ouro Preto, estudava comigo na Escola Técnica Federal do Rio e convidou a mim e ao outro companheiro para irmos à cidade, uma vez que ele estava voltando para viver lá com a família de novo. Ele falou tão bem do local, que eu só conhecia pelos livros (Sim! Sou antigo! NÃO HAVIA INTERNET, TÁ?!), que não havia como recusar o convite.
Assim, em uma Semana Santa (que naquela época era um feriado de quinta a domingo, pois ainda não haviam nos roubado a Quinta-Feira Santa), “no ano da Graça de 1982″, com 18 anos de idade recém-completos, arrumei mochila e caí na estrada rumo à centenária Vila Rica.
Ficamos hospedados na casa da irmã do cara, que nem pensou no inconveniente de acomodar dois caras na pequena casa de dois quartos, onde já moravam a irmã, o marido, uma bebê de poucos meses e uma outra irmã…
A casinha era em uma das maiores ladeiras de Ouro Preto, bem no meio dela!!!!

Ladeira de Sta. Efigênia, uma das mais íngremes de Ouro Preto e local de minha primeira hospedagem por lá.
Dormíamos onde dava e QUANDO DAVA! Porque Ouro Preto é/era uma festa interminável…mas eu chego lá.
A irmã, dona da casa, foi de uma simpatia sem tamanho. Aceitou o irmão e os dois encostos numa boa, mas avisou: “Vai ter que ajudar na limpeza! Lavar louça, arrumar a casa…”.
Sem problemas, “Dona” Cris! A gente ajuda!
Logo pela manhã em que chegamos, fomos rodar a cidade – a pé, diga-se de passagem – e subir e descer intermináveis ladeiras. As mesmas que eu viria a conhecer tão bem, que me capacitam a, hoje, desenhar de cabeça um mapa de Ouro Preto.
Como estava voltando para a cidade, nosso amigo fez questão de bater na casa de TODOS seus amigos de infância para anunciar o retorno do filho pródigo e aproveitar para apresentar seu amigos cariocas.
Aí tomei contato com a famosa hospitalidade mineira. Praticamente em cada casa que ele tocava a campainha ou batia na porta, as pessoas nos recebiam muito bem, convidavam a entrar – lembrem-se! Isso era por volta das 8h da manhã! – e, invariavelmente, nos chamavam para tomar café da manhã.
Os nomes das pessoas são muitos e eu não quero citar nomes aqui. Uma menina que morava ao lado da Igreja de São Francisco de Assis, outra na Rua Direita (Conde de Bobadela para os menos íntimos), outra na Rua Paraná (a última casa, ao lado da República Necrotério, hoje, um escritório da OAB), outra no meio da ladeira da Rua do Pilar, outro atrás da Igreja do Pilar, outro no Alto das Cabeças, mais um nas Lajes…Muita gente para apenas uma manhã em Ouro Preto!
Tão bom quanto conhecer aquelas pessoas, muitas delas amigas minhas até o dia de minha morte, foi esquadrinhar a cidade ao lado de quem a conhecia tão bem.
O dia correu rápido e, meio enevoados pelo cansaço e por várias cervejas matinais e vespertinas, a noite chegou. E que noite era aquela!!!!!!
Estudantes (Ouro Preto e Mariana, cidade vizinha, concentram universidades federais e estaduais, além da Escola Técnica Federal), turistas nacionais e estrangeiros, “locais”, pessoal de BH…Todos misturados, interagindo (palavra muito pouco utilizada na época…heheheehe), bebendo, paquerando, rindo. Uma verdadeira festa: sexo, drogas, rock’n’ roll, ácool. Tudo o que você puder imaginar rolava na mais católica das cidades em uma Semana Santa.
Nesta primeira noite, o amigo que foi conosco revelou que nunca havia tomado um porre na vida. O cara media quase 1,80 m, era pesadão e resolveu se soltar e cair no álcool justamente neste dia…Resultado: palanque armado na Praça Tiradentes para um ato com a presença do Presidente da República, Governador de Minas e demais autoridades e aspones virou cama pro cara. O pior foi carregá-lo ladeiraS (O maiúsculo foi proposital) acima para deitá-lo no palanque. Arrumamos cobertores para ele, pois estava um frio do cão, inimuano para um carioca. E descíamos e subíamos as ladeiras, de bar em bar, sempre retornando à praça para ver se o cara estava bem.
Lá pelas muitas horas, decidi me enrolar em um cobertor – cena comum pelas ruas naqueles dias de festa – e deitar em algum lugar para dormir. Vencido pela cachaça (Pinga com mel. A melhor que já tomei!), decidi que o melhor local para pernoitar era sobre a grade dos holofotes da Igreja de N. S. do Carmo, ao lado do Museu da Inconfidência. Os holofotes eram quentes e eu não passaria frio. Eu só não contava com um guardinha que ficava a noite inteira circundando a igreja e espantando os bêbados, que insistiam em fazer do átrio secular seu dormitório particular/coletivo. Mas ele não contava com minha esperteza! Eu calculei o tempo que o “representante da ordem” levava para completar sua ronda: 25 minutos. Assim, eu dormia 20 minutos, acordava, saía de cima do holofote, ficava ao lado, fazendo cara de paisagem, e voltava a deitar tão logo ele passasse.
Que bela noite de sono!
Por volta das 6h, sol raiando, fui checar meu camarada no palanque. Estava bem, não havia entrado em coma.
E essa foi só a primeira de quatro noites naquela cidade fantástica.
Bruxas, pessoas vestidas como os Beatles no Sgt. Pepper’s, hippies, gringos…Uma fauna de fazer inveja ao Baixo Leblon carioca.
Os dias nos ofereciam cachoeiras – Falcão, Geladeira, Andorinhas, Brumado, Castelinho…-, botecos e mais botecos, mais gente a conhecer, repúblicas a invadir, festas a penetrar (“penetra”, no Rio, é aquela pessoa que entra em uma festa sem ter sido convidado), cervejas a beber…
Nesta minha primeira ida, não entrei sequer em uma igreja das tantas ouropretanas. A viagem foi à base de conhecer as ruas, bares, repúblicas e natureza locais.
Aliás, uma recordação especial desta primeira passagem é o Bar Escorpião, que abria somente à meia noite. Lá serviam um caldo de galinha, vulgo canja, e um vinho quente com cravo e canela que eram deliciosos para esquentar a noite gelada. Cheguei a pegar 6ºC em Ouro Preto. Duvido que ainda faça isso nesses tempos de aquecimento global.
O Escorpião era um bar no alto de uma ladeira,que começava à esquerda da rua lateral direita à Escola de Minas. Você subia, subia, subia e chegava ao bar, com uma enorme mesa de pedra logo na varanda de entrada. Era o maior “point” dos malucos locais. Só os iniciados ou turistas como eu, muito bem guiados por pessoas da cidade, conheciam.
Outro local tão desconhecido quanto, na época, era a Cachoeira das Andorinhas, um dos lugares mais bonitos que vi na vida (ou em vida). Um rio que corria a céu aberto e, de repente, sumia em um buraco. Descendo pelas pedras, adentrava-se uma caverna. Dentro da gruta, a tal cachoeira, com direito a revoada de andorinhas, que se infiltravam pelas aberturas e voavam em torno da queda d’água em meio aos raios de sol que entravam pelas frestas das pedras. Um cenário inesquecível!
Na parte de cima, a sensacional Pedra do Jacaré, uma plataforma de pedra, com cerca de 20 metros, que se precipitava sobre um vale de mais de 100 metros de profundidade. O lugar serivu até de locação para um comercial muito antigo da Rider.
Ai! Queria voltar mais uma – a enésima! – vez a Ouro Preto. A última vez em que estive lá foi em fevereiro de 2007…
Me falaram, então, que ninguém em sã consciência ia à Cachoeira das Andorinhas. Por falta de zêlo das autoridades, o local havia se tornado alvo de assaltos e até crimes mais graves. Os bandidos ficavam à espera de turistas desavisados para roubá-los. Uma lástima!
Mas, voltando aos bons tempos de minhas memórias, eu ainda teria muito tempo – e tive! – antes de morrer para conhecer cada cantinho daquela que sempre foi uma das minhas cidades preferidas do Brasil!
Em vida, tive tempo de “apresentar” esta cidade mágica para diversos amigos. Um deles até foi morar lá!